
poesia
de Frias Correia
Biografia: Nascido em 1941, em pleno Estado Novo, viaja por todas as terras de Portugal , buscando o santo Graal
O urro
O urro está cá dentro
Fez-se do dia e da noite
A besta fez-se desde sempre!
A noite
A noite é preta,
mesmo breu
a sombra mais escura
que até hoje achei,
aqui
neste país
não há dia,
só espelho,
só reflexo,
sem modelo,
sem pátria , como Deus
espalhado em gente que veste de luto
e que chora o filho
como luz repente
da fresta
das casa brancas.
noivas viuvas
como a noite:
pretas
1963, Frias Corre
Deus alia-Se à autoridade Justa
"Porque motivo as nações se rebelam e
os povos planeiam em vão?", Salmo 2
Noutro dia, conheci Manuela,
viúva, sem dor.
o marido encontrou a sua hora,
lá no capim do Além -mar.
Para Manuela, a vida é, sempre, o que foi:
o meio da estrada,
sem partida e sem chegada.
Nunca perguntou porquê
porque o quê é ela.
Da noite sabe que é o dia
e a morte nada!
O que vê Manuela à janela?
um longo campo sem Deus que é país
As lágrimas guarda-as do parto,
também nunca soube o que era ser criança.
A Manuela não é mais nada
"Rebentemos os seus grilhões,sacudamos o seu jugo" Salmo 2
Frias Correia, 1968
cela
encontro a cela,
fecho-me!
Aqui não há voz
que não seja eu.
os corvos para lá
da seteira são eu também,
no meu olhar demorado para fora
eles são a sombra em que me tornei
e ainda depois para lá não existe.
A cela é o meu sarcófago desejado
porque para lá dos papeis dos livros
este que escreve não é mais nada.
A cela tem 1 m2 de área
e o computador a minha frente,
a seteira maldita.
Frias Correia, Janeiro de 2000
rebenta sempre o sol à mesma hora
rebenta
sempre o sol à mesma hora
na tarde de uma forma sonora
os sinos de fé ficam secos
os mantras das preces são desertos violentos
a besta rebola-se na lama seca do ócio e da acidez
a besta é a inocência
a pureza da alma com o corpo da culpa
o sol como as armas executa a defesa imatura
as crianças brincam com peluches julgando os outros
e morrem
como os outros
sob as chamas e o tempo górdio do dia
o sol marca o tempo
o relógio a bomba
apesar de tudo a besta vive sempre
e é esse o nosso último suspiro
quando ainda o poente é só uma esperança
Frias Correia